segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Bicicleta de Rodinha.




Pensando num amigo querido resolvi republicar esse texto. Afinal o escrevi para ele... Saudades desse meu amigo...

Tarde fresca, cabeça quente. Precisando respirar para poder pensar.  Assim foi naquela tarde de verão. O mundo estava pequeno demais para a enormidade das minhas indecisões. Quando dei por mim, estava em um banco de uma charmosa pracinha perto de casa.

Com olhos desanimados e apáticos observei uma criança se equilibrando e desequilibrando em cima de uma bicicletinha de rodinha. A mãe veio ajudar, proteger, amparar. Mas um dedinho gorducho sinalizou um não. E uma vozinha determinada de criança disse: Mamãe você já me segurou demais! Agora quero tentar sozinho. Não vou cair não, a rodinha não deixa.

Aquele curto diálogo tirou-me do transe da vida adulta por alguns minutos. Passei a observar aquele pequeno valente e o desafio de sua pequena vida. Pelo visto era a primeira prova de sobrevivência no cotidiano daquela jovem vida.

Durante dez minutos observei suas tentativas. Caindo para um lado e para o outro, aos poucos foi se equilibrando, quando dei por mim o pequeno Davi, dei-lhe esse apelido. Já andava de lá pra cá. Ereto, digno e feliz. Havia vencido o desafio imposto por sua bicicleta de rodinha.

A mãe veio aplaudindo o pequeno. Muito bem querido! Disse ela. Agora você já é um ciclista.

O pequeno virou para e mãe e disse: mamãe tira as rodinhas. A mãe surpresa tentou argumentar. Vamos esperar mais uns dias. Até você se acostumar a andar com as rodinhas. Ele determinado rebateu. Mas mãe... você não está vendo que já estou ótimo? Quero que a senhora tire as rodinhas. A contra gosto a mãe atendeu ao pedido do pequeno Davi. Tirou as rodinhas. E mais uma vez lá foi ele. Porém não seria nada fácil dessa vez.

Rindo eu observava  aquela cena. Misto de determinação, coragem e inocência. Até havia me esquecido o que me levara àquela praça. Voltei a observar o pequeno.

Ele caiu duas vezes, sendo que na segunda esfolou todo o joelho. Vi que ele chorava, pois o joelho sangrava. A mãe como sempre tentava fazê-lo mudar de idéia. Vamos voltar a colocar as rodinhas?
Determinado mais uma vez disse não!

Agora com mais atenção, eu nem piscava. Quero ver no que vai dar isso. De repente o danadinho saiu pedalando. Parecia que nasceu sabendo andar de bicicleta. Sem ver comecei a bater palmas. Parecia que era eu quem estava naquela bicicleta. Meio desconcertada, pelo entusiasmo exagerado levantei ajeitando a saia, e fui andando.

No caminho de casa pensei: Preciso tirar as rodinhas que escoram a minha vida. Já é hora de removê-las! Algumas já estão até gastas de tanto suportar o peso da indecisão.

Ao longe ouvi a mãe chamar: Wagner. Vamos embora. Está tarde!


Então esse é o nome do meu pequeno Davi? Wagner... Mas sempre me lembrarei dele como Davi!
Texto de Regina Márcia