segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

E quando nos faltam coragem pra dizer as coisas?

Lendo um texto no Blog Livre Voz do povo, "O não de Eloá" lembrei de uma passagem inicial do livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas", onde meu velho Brás só teve coragem de dizer os seus nãos e mais algumas coisas, que o mesmo achava serem suas verdades, infelizmente, só depois de morto.  Fiquei matutando mineiramente com meus botões as palavras de Brás ou melhor de Assis. Ah! Tanto faz o nome. Pois Brás Machado e Assis Cubas são a mesma pessoa. 
Vocês devem estranhar nossa intimidade, ou melhor, o meu atrevimento de querer ser intima dele. Mas,  Machado foi o meu amor ao primeiro livro. Muitas coisas ele me jogou na cara, pela boca de personagens vivos e neste caso, bate-me à  face pela boca de um morto. 


Desejaria ter a mesma coragem em vida. Mas hoje quem as tem?
Toda vez que leio essa passagem, fico com a nítida sensação que meu amado imortal está por jogar-me na cara verdades que não quero admitir. Posso até ouvir sua cínica, implacável e aveludada voz.
...Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados....  

 Memórias póstumas de Brás Cubas
 Continuo pensando no NÃO DE ELOÁ...