quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Memórias de uma ex-candidata a vereadora. Os candidatos nos bastidores antes de sair para o corpo a corpo


Quando fui candidata em Belo Horizonte foi “trevas” vi de tudo um pouco. Elaborei um projeto de mandato pautado em observações feitas em minha região pontuando suas necessidades.  E lá fui eu! Achando que só isso bastava. Era romântica. Acredito que era isso mesmo. Este deve ter sido o meu erro e minha derrota! Romancear a política que eu queria fazer. 

 Os candidatos em sua maioria pensavam quase que da mesma maneira, muitos já haviam participado de outros pleitos. Assumir uma imagem estereotipada para angariar votos era prática normal. Viam o pleito eleitoral como um grande circo. Mas tinha os bons também! Que entendiam a importância de uma campanha e respeitavam o povo. 

 A princípio me senti deslocada nas visitas regulares que tínhamos que fazer ao Partido Político. Sempre tinha uma programação. Palestras, seminários sobre  legislação eleitoral e o regimento interno da Câmara Municipal. Existiam também, os momentos dos cafés, dos coquetéis. Momentos usados como forma de socializar os candidatos. Mas como pude perceber logo de início, ninguém era amigo de ninguém. Era um outro mundo. Cada um por si. Já que era assim, me aproximei de alguns candidatos que comungavam mais ou menos com minhas idéias.

Caros leitores e leitoras não me tomem por preconceituosa diante do relato que vou lhes fazer. Escreverei sobre as várias facetas que um candidato (a) pode assumir. Assume-as conscientes do que estão fazendo, sem um pingo de consciência pesada, ou noção do ridículo, tendo como único fim “CONSEGUIR O VOTO”! Apenas isso.
Conheci:
Candidato papagaio de pirata: aquele que aparecia em todos as fotos juntos aos caciques do partido, não podia ver um relâmpago cortar o céu que achava que era um flash. Nessa hora era melhor ficar longe, pois poderia sair com graves hematomas. Cotoveladas comiam pra todo lado. 

Candidata estilo Lady Diana: sempre usando um colarzinho de perolas de 1,99. Usavam perolas com tudo.

  • Terninho com colar;
  • Vestido com colar;
  • Jeans com colar;
  • Estampado com florais enormes com colar;
  • Xadrez multicor com colar;
  • Moletom com colar. Ah! Detalhe! E cara de paisagem!
Não tenho nada contra colares de perolas baratos. Muitas até ficaram elegantes em seu estilo.  Eu mesma tenho dois por sinal, e os uso com algumas vestimentas citadas acima, não todas claro.  O que acontecia era que os colares eram mais um artifício usado para enganar o povo. O discurso era: o povo gosta é de gente bonita e bem arrumada. Pobre não vota em pobre. 
Nessa época ainda não era proibido distribuir mimos ao povo. Centenas de colares foram distribuídas durante visitas às comunidades por onde foram..
Continuando...
Candidato Mister “M” era aquele que circulava pelos grupinhos colhendo informações pra fazer fofoca, dedando segredos alheios para poder se dá bem. Isso dava uma confusão danada!

Candidato “DOUTOR” sempre esfregando um cartãozinho amassado na nossa cara escrito: “Doutor” Fulano de Tal. Na política todo mundo é doutor. 

Candidato ecológico aquele que sempre carregava um copinho nadir Figueiredo dentro da bolsa. O discurso era sempre o mesmo, defendo a sustentabilidade, sou natureza. Copo pra mim só de vidro! E o infeliz copo ia pra tudo que era evento. Mas o candidato não conhecia se quer uma lei ambiental. Mas estava na moda falar de preservação.

Candidata toda boa: tentava sempre ganhar um milheiro de santinho, carro de som, doação para campanha com um rebolado. Achava-se a gostosa do pedaço! Não era agradável com nenhuma outra mulher. 

Candidato Boca Loca sempre beijando nossa testa. O resultado dessa demonstração de afeto era o rosto todo molhado. Ai que nojo! Corria léguas!

Candidata intelectual: sempre aparecia na Sede do partido usando dois óculos, um de sol na cabeça e um de grau no rosto. Agenda debaixo do braço, sempre dizendo: Acabei de chegar de uma palestra. Quase não deu pra vir hoje aqui menina. Você acredita?

Candidato terninho. Terninho branco, listrado, amassado, faltando botão, torto e menor que o sujeito. Tinha uns elegantes também.

Candidato cheiroso que só. Cheirava ao longe.

Candidata toque toque. O sapato fazia tanto barulho que antes dela entrar no partido já sabíamos que ela estava chegando...

Candidato mão leve. Esquecia a mão nas nossas costas e ficava polindo o nosso ombro. O local fica pegando fogo.

Ah! Ainda tem o candidato treme-treme, mas isso é outra história...
No pleito desse ano veremos isso e muito mais. Quem viver... Verá!

Mas nada do que disse foi motivo de espanto. O que me espantou e ainda espanta é: a VAIDADE, a arrogância e a pretensão de acharem que o eleitor é bobo. O resto faz parte do jogo. Eu também tive o meu estilo. Assumi o estilo de andar só de vestido. Tinha vestido de tudo quando é jeito e cor. Mas terminei a campanha doente e cansada, pois não é fácil fazer política sem apoio. Minhas idéias não foram atraentes. Eu queria mudanças e tinha a língua muito afiada.
Uma coisa conclui. Todo cidadão deveria sair candidato ao menos uma vez na vida, para entender como as coisas acontecem. Estar candidato(a) abre um pouco a nossa mente. Começamos a entender um monte de coisas que antes eram incompreensíveis. Não entendam minha sugestão como uma receita pronta para compreender nossa política. Mas é uma boa oportunidade de desvendar um pouco os mistérios desse mundo paralelo que é a política brasileira. Eu já tive a minha cota. Não preciso de uma segunda dose. 

Texto de Regina Márcia