terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cuidado com o que pensa.

Caros leitores este texto é o resultado de observações do cotidiano. A primeira publicação foi feita em um BLOG que sou colaboradora  http://colunawagnereustaquio.blogspot.com mas quis republicá-lo aqui hoje. Realizei poucas modificações gramaticais, só isso. No mais "tatodiiinaí!"


Os processos de convivência nos ensinam muitas coisas. Muitas pessoas passam por minha vida, para o bem e para o mal. Umas ficam, outras vão, mas sempre deixando uma reflexão, uma marca, uma dor, um sorriso ou uma lágrima
Acredito ser assim com todos nós. Quem tem telhado de vidro "nuumjogapedranodovisiin."  Minha mãe sempre me diz isso, desse jeitiin aí. Falamos tudo agarradiin assim. Carregado do nosso sotaque mineiro.

 A história a seguir é fictícia. Não sendo portanto, baseada em pessoas reais.

Acordei diferente hoje. Parece que adquiri poderes sobrenaturais durante a noite. Descobri meus poderes logo cedo de encontro com a empregada na porta do banheiro. Passei por ela e ouvi “essa macaca parece gente”! Tomei um susto e perguntei o que havia dito? Ela falou. Nada. Não disse nada. Entrei no lavabo meio que desconfiada. Será que to louca?

Já à mesa do café confirmei meus poderes. Posso ler pensamentos. Como descobri isso? Ouvi novamente a voz da Joana, a empregada. “Patroa preta é pior que as brancas. Essa aí só porque não mora no morro pensa que ta podendo.” Pensei comigo, puxa ela é mais escura do que eu... Nem por isso...

Sai às presas, estava atrasada ia perder o ônibus, no caminho fui pensando estou sonhando. O ônibus chegou sentei nas últimas cadeiras. Mais adiante o ônibus parou. Ouvi outro pensamento. Era o motorista pensando: Lá vem aquele aleijadinho, não tenho paciência com a lentidão desse cabra da peste. Oxente! Pena que hoje não dá pra passar batido. Tem mais gente no ponto. O passageiro entrou arrastando sua perna torta. O motorista de propósito não esperou que ele se instalasse e já foi arrancando, muito feliz por fazer isso.

Mais adiante entrou uma mulher gorda, e o deficiente físico pensou: Puxa que gorda! Tomara que ela vá se assentar em outra cadeira. Pois vai ocupar todo o banco.
A gorda sentou logo atrás dele, depois dela entrou uma moça negra, alta, bonita e vestindo boas roupas. A gorda pensou: odeio gente preta. Não quero essa negrinha sentando perto de mim. Mas pra sua infelicidade a moça sentou do seu lado.
Nessas alturas já estava horrorizada com os pensamentos que ouvia.

Duas moças acabaram de entrar. E o que uma pensava sobre a outra era no mínimo difícil de acreditar e entender.
A loira perguntou pra morena. O que você achou da calça que estou usando? A morena respondeu: Linda querida. Onde comprou? Você tem um corpo ótimo, tudo lhe fica bem. Mas seu pensamento foi: Metida horrorosa. Si acha. Pode até ser gostosinha, mas é loira burra.
Pra render assunto a morena pergunta pra amiga. Você acha que as massagens estão reduzindo minhas medidas? De pronto a loira disse: Querida já ia te dizer, você está com um corpaço. Mas pensou em seguida: Vaca fuleira. Essa sua bunda cheia de celulite não tem conserto. Mas pra quem é basta! Uma garçonetizinha de quinta, em uma lanchonete na rodoviária. Ta valendo.

Farta eu não via à hora de chegar minha vez de descer. Mas pra engrossar o caldo, ou melhor, os pensamentos, entrou um homossexual, aí foi um tumulto de pensamentos que só.
 O deficiente: lá vem aquela bicha de novo.
A gorda: Deus me livre de ter um viado na família.
A moça negra: esse cara devia tomar vergonha e virar homem.
As duas amigas pensaram juntas: lá vem a mocinha lobisomem. Demora pra ser gostosa igual à gente. Sonha meu filho!

O homossexual também externou seus pensamentos: Lá vou eu enfrentar esse coletivo recheado de gentinha. Logo na entrada dou de cara com esse nordestino cabeça chata, olho mais adiante o que vejo? Aquela gorda horrível com cheiro de fritura, e o manquinho? Nem se ele fosse o último homem do mundo eu pegaria. E a neguinha? Tem cara de preguiçosa. E essas duas putinhas de beira de estrada. Aposto que estão descendo pra bocada.

Desci logo em seguida, também, com meus pensamentos preconceituosos a me incomodar. Ouvi demais por hoje. Ouvindo os pensamentos daquelas pessoas voltei pra dentro de mim mesma. Conclui. Toda ação é resultado de um pensamento. 
Texto de Regina Márcia